Mais uma vez me vejo na chuva, na rua, nua.
Sem alma para vender, com lábios costurados sem nada a pronunciar.
O gozo da água escorre nos olhos camuflando a dor da ausência, sinto a calma das nuvens.
Preenchem o céu, escondem a confidente da noite e as companhias brilhantes.
No caminho deserto encontro a morte, nem me olha.
Como sua companhia seria bem vinda, mas não posso chama-la.
Como todos, deve entrar no meu caminho e querer estar lá.
Em grandes correntes no peito, puxo as pescarias feitas pelo olhar e grandes sorrisos.
As mãos, envelhecidas e escuras de terra, tateiam o corpo a procura de conforto.
Uma luz, temporária, engana a vista com esperança envaidecida.
Trocamos olhares.
Me aquece, enxuga o corpo molhado, me faz sentir o peso e a leveza do orgasmo.
Volta com sua fumaça embranquecendo o ambiente.
Respirar não é mais possível.
Compartilha suas vontades, esconde seus batimentos.
Segue.
Volto a olhar a chuva e seus pingos cada vez mais grossos.
A queda desse líquido sobre os seios limpa os desejos.
Enfim, novamente só.
Puxo os grilhões, balançam delicadamente sem machucar.
Respingam um doce melado que arde na pele.
Sorrisos e gargalhadas enchem o caminho de sons deliciosos.
A chuva diminui seus pingos para escutar melhor a sutileza das palavras.
Escuto, longe e loucamente desesperada, palavras que iluminam os céus.
A confidente desfalece, a companhia brilhante diminui.
Das correntes seguem imagens distorcidas e coloridas.
Os lábios, já abertos de satisfação, pronunciam a felicidade.
"Levanta e me ama"
Desvio o olhar.
O caminho escurece e começa a chover novamente.
Contudo, sempre poderei encontrar a luz e felicidade nos grilhões.
Vão de meu coração até os olhos e sorrisos brilhantes das imagens coloridas a minha frente.
Estarão sempre me guiando para longe da estrada escura.
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